Marcelo Guerra on January 23rd, 2011

O Lama Gangchen Rinpoche aconselhou que gravassem e divulgassem esta canção do Bardo. É a reza costumeira para ajudar os mortos nos primeiros 49 dias da passagem. Devemos tocar e rezar com a motivação de beneficiar a todos os mortos nas enchentes.

A oração em tibetano:

OM MANI PEME HUM HRI
OM MANI PEME HUM
TCHION DEN GUIALWA SHI DRO LA TSOG KYEN
BARDO DJIG PE TRANG LE DREL DU SOL

E seu significado em português:

Assembleias de gloriosas e vitoriosas divindades pacíficas e iradas, escutem-me: por favor, libertem (a mim mesmo quando estou rezando para preparar minha própria morte ou os nomes dos mortos quando nesta situação) dos medos da estreita e terrível passagem do bardo.

Marcelo Guerra on December 26th, 2010

“Comemorar o nascimento de Jesus com presentes e festividades mostra algum respeito e atenção para os ideais desta vida.
Mas, Meditar e preparar a sua mente para a santa ocasião do Natal, para que você possa experienciar no seu interior o nascimento de uma nova consciência de fraternidade universal e amor por todas as criaturas vivas, é realmente celebrar o Natal.
Afaste de sua mente todo tipo de orgulho e preconceito, para que você possa apreender a Consciência Crística Onipresente em seu interior expandido”.

Marcelo Guerra on December 11th, 2010

Marcelo Guerra

Reflita se você escolhe onde passar essa data por prazer ou obrigação

Fim de ano, época de festas, confraternizações, alegria e, para muitos, aborrecimentos. Os dias que antecedem o Natal trazem a necessidade de tomar decisões aparentemente triviais, mas que podem trazer problemas para o próximo ano inteiro. Decidir que presente vai dar para quem talvez seja o mais fácil de resolver. Decidir onde vai passar a noite de Natal e o almoço de Natal é a decisão mais arriscada, principalmente para adultos que já construíram uma nova família, além de sua família original.

Tradicionalmente o Natal é considerado como a festa para se passar em família. É aí que entra a questão: qual família? A que você construiu pelo casamento ou morando com alguém? A família em que você nasceu e foi criado? A família da pessoa com quem você construiu uma outra família? Quem não casou não está isento desse conflito, porque muitas vezes os amigos formam um grupo tão ou mais coeso que uma família, e nessa hora esse grupo também entra no rol de possibilidades.

Há alguns momentos dessas 48 horas (dias 24 e 25) que são mais importantes que os outros? Ou seja, há um horário nobre do Natal? A maioria das pessoas tende a considerar a noite de 24, até a meia-noite, como a apoteose da festa. Por conta disso, este é o momento mais crucial para decidir.

Um exemplo comum é o de um casal com filhos cujos pais são vivos. Vão passar o Natal em sua própria casa, com seus filhos? Vão para a casa dos pais do marido? Para a casa dos pais da esposa? Vão juntar todo mundo? Vão passar a noite de 24 com os pais de um e o almoço de 25 com os dos outro? E os cunhados e cunhadas, vão poder ajeitar seu horário de forma que coincida com os seus?

Decisão difícil… O difícil não é decidir onde você vai passar a noite de 24, mas onde vai deixar de passar. Cobranças, reclamações, mágoas… Prepare-se, elas virão de algum lugar.

Por que muitos de nós precisam sentir-se prestigiados pela escolha dos filhos em passar a noite de Natal em nossa casa? O que representa um filho não vir para a noite de Natal? Ele me ama menos? A família em que ele foi criado é menos importante para ele do que a família que ele construiu? Por que me sinto menos por ele não vir na noite de Natal? Por outro lado, por que sinto mais obrigação do que prazer em passar o Natal com os meus pais ou os meus sogros? Por que sinto tanto medo de magoar?

Mágoas guardadas

Como em todo relacionamento, a dificuldade de comunicação é um pedregulho no sapato. Deixamos de falar o que pensamos e, principalmente, o que sentimos, com medo de magoar, com medo de ser mal interpretados. Muitas vezes, pequenos problemas que não são falados, vão crescendo dentro de nós até o dia em que ou explodimos ou evitamos o contato. Numa data como o Natal, na qual as pessoas podem sentir-se obrigadas a estar juntas, é natural que esses sentimentos e mágoas que carregamos no bolso do coração entrem em ebulição novamente, causando mal estar. Sem dúvida, este não é o melhor momento para trazer à tona assuntos tão delicados que vêm sendo escondidos ou cultivados com pitadas de ressentimento, raiva, incompreensão, intolerância. Porém é possível dizer o que você sente em relação a uma situação que se apresente no momento, tomando o cuidado para não contaminar com as mágoas escondidas. Expressar o que você sente é o primeiro passo para estabelecer ou melhorar uma relação familiar. Não confunda expressar seus sentimentos com o muro das lamentações! Dizer o que você sente não lhe exime das suas responsabilidades em tudo o que lhe acontece, quer dizer, a culpa do que lhe acontece de errado não está nos outros.

Construímos nosso destino com aquilo de que dispomos, com o dinheiro que ganhamos, com o DNA que herdamos, com a educação que recebemos, com os amigos que fazemos. Seguimos (ou não) um mapa inconsciente que desenhamos com o nosso eu interior, e que mostra para onde apontam nossos propósitos e intenções mais profundos. Se ignoramos o mapinha e vamos para onde o mar da rotina e do conformismo nos leva, isto é nossa responsabilidade e não devemos acusar os outros por isto.

Voltando ao Natal, para sua decisão, busque aquilo que lhe é possível neste momento, mas procure perceber aquilo de positivo que traz união à sua família. E expresse o que você sente, seja por palavras, por um abraço, um tapinha nas costas, um sorriso. O espírito de Natal, afinal, é constituído pela união de nossos corações.

Feliz e expressivo Natal! Paz em seu coração!

Artigo publicado originalmente na Revista Personare.


Casa e Família

Você gosta de Natal em família?

Reflita se você escolhe onde passar essa data por prazer ou obrigação

Marcelo Guerra on August 19th, 2010


Dúvidas associadas ao nascimento do filho podem ocasionar a doença

Um recente estudo publicado no Journal of American Medical Association revelou que cerca de 10% dos pais também sofrem depressão após o nascimento do bebê – e este índice aumenta após o primeiro trimestre.

Diferente da depressão pós-parto que ocorre na mulher, ela pode se manifestar mais tarde nos pais provavelmente porque os três primeiros meses são de novidade e muito,  muito trabalho. Outro dado importante é que nos homens é mais comum que a depressão ocorra quando do nascimento do primeiro filho.

O cuidado da mãe com seu filho provoca no homem um sentimento de abandono, como se tivesse sido preterido pelo bebê. Mesmo consciente de que não é esse o caso, o sentimento é este: eu não recebo mais a atenção que recebia, ela já não se importa comigo como antes.

Mudanças no comportamento

Além de sentir-se preterido, a responsabilidade do homem aumenta muito ao tornar-se pai pela primeira vez. Hoje a cobrança por ser um pai presente, participante dos cuidados do filho, aumentou muito, numa mudança gigantesca em relação a décadas passadas, quando o pai tinha como principal tarefa ser provedor da família e, se sobrasse um tempinho, brincar uns minutinhos com o filho. Ser pai hoje exige mais presença e disposição para educar e brincar.

Diante da depressão pós-parto, há mudanças no comportamento do homem, sendo a principal delas o ausentar-se mais de casa, como numa fuga da situação. O homem passa a chegar mais tarde e sair mais cedo, assume novas atividades fora de casa. De repente, entrar para a academia torna-se urgente, depois de anos enrolando para matricular-se. E é sentido mesmo como urgente!

Numa tentativa de reconquistar a atenção perdida de sua mulher, o homem busca afastar a mãe do bebê. Outras vezes, pode aventurar-se em casos extraconjugais, buscando resgatar esta atenção em outras mulheres.

Não importa como o homem reage à depressão pós-parto, o seu sentimento é de tristeza – e o abatimento é difícil de ser escondido. Sintomas típicos da depressão estão presentes, como angústia traduzida por dor no peito, pensamentos constantes, sentimento de inadequação, de que não vai dar conta da responsabilidade que cresceu. Insônia é frequente, geralmente pelos pensamentos persistentes. O homem sente como se  não conseguisse amar seu bebê como gostaria, o que lhe causa mais culpa e sofrimento. A evolução do quadro pode levar a pensamentos de suicídio.

É importante que o homem reconheça que está doente e busque ajuda através da psicoterapia ou de uma medicina que o perceba como um todo, como a Homeopatia ou Acupuntura. Através de um tratamento bem feito, o homem pode resgatar sua autoconfiança e não se sentir sobrecarregado pela responsabilidade aumentada ou relegado a um segundo plano por sua esposa. Assim, poderá encontrar-se de forma inteira com seu filho.

Artigo originalmente publicado em Personare

Marcelo Guerra on August 12th, 2010

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.


E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto

Cada um de nós nasce com um destino, não como um livro previamente escrito em que cada ato nosso está previsto, mas como uma missão a nós confiada. Isto faz com que a vida tenha um sentido e, muitas vezes, sofremos com angústia ou depressão por não percebê-lo claramente. Os fatos de nossas vidas estão aí para que encontremos o Fio do Destino que, junto com o nosso livre arbítrio, tece os acontecimentos tanto no nosso mundo interior quanto na nossa vida nas comunidades em que vivemos.

Este curso tem o objetivo de buscar o fio do destino de cada um, desembaraçá-lo, tecê-lo de forma diferente, mais confortável, mais de acordo com o sentido que queremos dar para nossas vidas. Para isso trabalharemos com fatos de nossas próprias vidas. Este trabalho será feito com palavras e arte. Ninguém precisa ser artista ou ter conhecimentos prévios de Antroposofia para participar, é claro.

Muitas das questões que nos colocamos hoje são percebidas de modo diferente quando as situamos no contexto mais amplo da vida toda. A troca de experiências de vida num grupo é enriquecedora e suaviza os sentimentos ligados a essas experiências.

Coordenado por:

  • Nina Veiga

Educadora Waldorf e Psicopedagoga artística, mestre em linguagem e cultura.

  • Rosângela Cunha

Psicóloga, Gestalt-terapeuta e Terapeuta Biográfica.

  • Marcelo Guerra

Médico Homeopata e Terapeuta Biográfico.

Onde e quando?

Em Nova Friburgo, no Sítio Vale de Luz, de 4 a 7 de setembro (feriado da Independência) de 2010.

Quanto?

R$450,00 ou 5X R$90,00

(O preço inclui os honorários e deslocamento dos coordenadores, os materiais usados durante o workshop, a divulgação, a hospedagem em quartos compartilhados e a alimentação. A inscrição é confirmada com o depósito da primeira parcela.)

Escreva para rosangela@terapiabiografica.com.br,  ou marceloguerra@terapiabiografica.com.br para mais informações. Ou ligue para:

(21)7697-8982 ou (22)9254-4866

Marcelo Guerra on July 23rd, 2010

Na Terapia Biográfica usamos essa afirmação como símbolo do período de desenvolvimento que todos passamos de 7 a 14 anos. Este é um período em que buscamos, identificamos e valorizamos a beleza no mundo. Se até os 7 anos nosso principal referencial era a própria família, nessa fase a criança se divide entre a casa e a escola, e a comparação surge como atividade que permite classificar tudo o que vivenciamos no mundo.

A beleza é encontrada nos contos de fadas, nas histórias de heróis, nas lendas e fábulas. A natureza é outra fonte inesgotável de apreciação da natureza para uma criança, que se delicia vendo e brincando com os animais, se extasia diante de uma flor, se maravilha com o mar. A criança participa da beleza que há no mundo, ela não é mera espectadora, ela brinca com os animais, tira as flores do pé e se enfeita com elas, inventa mil brincadeiras na praia.

Quando adultos, perdemos muito dessa capacidade de apreciar e desfrutar a beleza e precisamos muito da confirmação do outro para podermos reconhecê-la. Assim, o belo é aquilo que todos, ou a maioria, considera belo, e geralmente esta é uma visão muito superficial, pois não há contato com a essência daquilo que é observado.

Quando visitamos uma cidade, isso se torna claro por escolhermos visitar somente os pontos turísticos consagrados, que são verdadeiros pastiches. O Rio de Janeiro, por exemplo, é famoso pela Pão de Açúcar e pelo Cristo Redentor. Sem dúvida, lindos! Mas o que eu mais gosto no Rio de Janeiro é de tomar um chopp sexta-feira à tarde, nas ruas do centro, em que todos estão saindo do trabalho e, de certa forma, comemorando o fim de semana que está começando. Este é o tipo de beleza que lembra aquela que vivenciamos quando crianças: você participa dela, e a alegria presente nela é o que a faz tão especial. Ninguém vai fotografar as mesas cheias de pessoas tomando chopp e comendo peixe frito, você vai lá participar dessa maravilha!

Precisamos resgatar nossa apreciação de criança para ter um novo maravilhamento com a beleza do mundo, uma beleza da qual podemos ser participantes e não somente espectadores.

Marcelo Guerra

Médico Homeopata e Terapeuta Biográfico

Co-fundador do DAO Terapias, realiza workshops de auto-desenvolvimento em várias cidades do Brasil.

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Marcelo Guerra on July 21st, 2010

Lacunas



Muitas vezes, nossos relacionamentos, nosso trabalho, nossas escolhas de vida são como um papel quadriculado, onde apenas alguns quadrados são preenchidos e outros permanecem em branco. Essas lacunas podem ser propulsoras de mudanças. Os quadriculados preenchidos dão a sensação de que está tudo bem, mas o que ainda falta ser preenchido nos impulsiona. A questão é saber qual o peso as lacunas têm em nossa história e o quanto elas são suficientemente fortes para nos mover de nossa zona de conforto preenchida e estável.

Participei de um trabalho biográfico recentemente. Já falei algumas vezes sobre Biografia Humana aqui na coluna.  O objetivo da Biografia é promover um contado panorâmico com nossa própria história de vida, colocando em perspectiva fatos e questões para que possamos, olhando um pouco mais de longe, reconhecer os sutis fios que nos conduzem pelo caminho.


Hoje quero comentar uma pequena experiência que tive recentemente em Nova Friburgo, através do trabalho do médico homeopata e terapeuta biográfico, Marcelo Guerra, durante o V Encontro de Artes Waldorf.


A vivência, chamada de Observação e sentido, usava a arte para sensibilizar o participante e deslocar sua maneira costumeira de ver a si e ao mundo.


Em dado momento, o terapeuta pediu para que cada um de nós desenhasse uma cena de nossa vida que fosse significativa para estar ali naquele momento. O trabalho era realizado em grupos de três pessoas que depois deveriam partilhar seus desenhos e suas experiências.


No grupo em que eu estava, um desenho me chamou particularmente a atenção. Nele, seu autor desenhou um plano quadriculado à direita, uma gravata ao centro e a esquerda  estava preenchida com raios de sol e flores. Do lado direito, uma fisionomia triste, do lado esquerdo, uma alegre. Ao explicar o desenho para o resto do grupo, o jovem falou que era um executivo em Nova York, estava muito bem financeira e profissionalmente, mas que a vida dele era cheia de lacunas. Quando começou a perceber o  peso que essas lacunas não preenchidas tinham em sua  vida, resolveu largar a gravata, mudar de emprego e com isso acabou se sentindo mais inteiro, apesar de ter uma vida muito simples e com poucos recursos financeiros.


Desde então, tenho pensado no peso das minhas próprias lacunas. A vida que levo não é ruim, tenho muitos quadradinhos preenchidos, mas existem também lacunas. Seriam essas lacunas suficientemente fortes para promover mudanças tão qualitativas e intensivas como as de meu colega de exercício? Seria eu corajosa o bastante para olhar para essas lacunas e reconhecê-las como fator de transformação?
Impresso e publicado originalmente em 17 de julho de 2010.

Marcelo Guerra on July 20th, 2010

Segundo um amigo, a vida é como rapadura: é doce, mas não é mole, não!

Nos momentos mais duros, em que precisamos de um ombro amigo, muitas vezes é a um amigo de infância que recorremos. O que torna tão especial uma amizade que foi construída há tantos anos? Numa olhada superficial, o fato da longa duração da amizade de infância já a torna especial. Mas há algo mais, muito mais!

Na metodologia do trabalho biográfico, estudamos o desenvolvimento do ser humano com um viés evolutivo, em que cada um vai tomando contato e expressando cada vez mais a sua essência, o que se chama “individuação”. Nesta metodologia, dividimos didaticamente a vida em períodos de sete anos, os chamados “setênios”. No primeiro setênio, de 0 a 7 anos, a criança tem uma dependência e ligação quase exclusiva de sua família. No

segundo setênio, de 7 a 14 anos, a criança divide essa ligação com a escola. Ela vive em dois mundos diferentes, a casa e a escola. Ela depende dos cuidados e autoridade dos pais e das professoras e professores.

Buscando identificação

É neste segundo setênio que a criança aprende a criar amizades, encontrando outras crianças que têm os mesmos interesses. Através dessa identificação, a criança cria um vínculo que ela escolheu e torna-se amiga de alguém. Um amigo que vai escutar suas reclamações sobre seus pais, suas dificuldades com os outros colegas, suas alegrias simples, suas brincadeiras.

Quando temos um amigo pela primeira vez, criamos uma nova imagem do que são os limites.Quando temos um amigo pela primeira vez, criamos uma nova imagem do que são os limites. Se até então, os limites eram impostos pelos pais e/ou professores, agora os limites são parte de um acordo explícito ou implícito entre dois amigos, porque não queremos magoar um amigo

nem ser magoados por ele. Este é o germe do respeito que deve haver em todos os relacionamentos. E que levamos para a vida adulta para desenvolvermos no respeito entre colegas de trabalho, no respeito na vida amorosa e por aí vai…

Nesta fase, a criança ainda vê o mundo sem as lentes das ideologias (que ela vai buscar no próximo setênio, durante a adolescência) e pode ver o mundo de uma forma ingênua, mais carregada de fantasia, experimentando-o e saboreando-oo de uma forma própria. A adolescência simboliza a queda do paraíso, em que as fantasias e essa visão ingênua dão lugar à crítica e à divisão. Na vida adulta, quando nos defrontamos com situações mais duras, o amigo de infância é aquele porto seguro, o que traz aconchego e confiança, que nos permite dissolver essa dureza e perceber novamente a doçura da rapadura que é a vida.

Dedico este texto a Orlando, meu querido e leal amigo desde os 11 anos, duplamente compadre, que sempre tem uma palavra amiga que me faz ver o mundo com os olhos alegres e confiantes de uma criança.
Artigo originalmente publicado na Revista Personare
Marcelo Guerra on June 1st, 2010

Artigo originalmente publicado na Revista Personare.

Marcelo Guerra

O filme Alice no País das Maravilhas, na versão de Tim Burton, além de sua excepcional beleza que, graças ao efeito 3D, nos toca quase que literalmente, nos proporciona uma importante reflexão sobre a Crise de Identidade. Arquetipicamente esbarramos com ela na passagem da adolescência para a vida adulta.

Enquanto em algumas sociedades tribais os jovens precisam passar por lutas ou serem largados numa floresta, em nossas sociedades ocidentais encontramos metáforas dessas lutas e aventuras dentro de florestas desconhecidas. O final de faculdade e a procura por um emprego geralmente se assemelham bastante à sensação de estar perdido no meio de uma floresta. Precisamos demonstrar habilidades que ainda não estamos bem certos de possuirmos. Alice se vê diante de uma escolha ‘profissional’ (afinal ser esposa era praticamente uma profissão para as mulheres daquela época), ao ser proposta em casamento por um jovem rico e sem graça. Este é o momento em que ela percebe que sua vida adulta está batendo à sua porta, e sua Crise de Identidade começa.

Alice cai num buraco muito fundo, suas certezas da adolescência ficam todas em suspenso, uma sensação de estar no vácuo. Afinal, a adolescência é uma época de dúvidas, mas costumamos mascará-las com ideologias que buscamos desesperadamente. Agora, as ideologias precisam passar por um choque com a realidade. Ser adulto implica em buscar a sua própria verdade e não emprestarmos uma de alguma ideologia, por mais sublime que seja. E a sua verdade pode não ser tão sublime assim, afinal nossa personalidade está povoada por elementos de luz e de sombra.

Alice se vê diante dessa crise e nem sabe se é ’a Alice’! Põe-se numa jornada de exploração, típica do início da vida adulta, em que viajamos muito, conhecemos muitas pessoas diferentes (saindo daquele esquema do ‘meu grupo’ tão comum na adolescência), trabalhamos em vários lugares diferentes, ou seja, buscamos conhecer o mundo como ele é. Recebemos ajuda de pessoas mais velhas e experientes, como o Chapeleiro Louco fez com Alice.

Ao fim da exploração, Alice se vê diante do Jaguadarte (uma espécie de dragão) e, principalmente, diante do último fio de convicção ideológica que guarda de sua adolescência: ‘Eu não sou capaz de matar’. Cada vez é mais comum nos agarrarmos aos traços de nossa adolescência, até mesmo pelo excessivo valor que é depositado à imagem da adolescência pelos meios de comunicação. Um exemplo disso é o fato, cada vez mais comum, de ficar morando com os pais por muitos anos depois de adultos. E o comportamento em casa de quem mora com os pais é de adolescentes, geralmente sem qualquer responsabilidade. Quando Alice corta a cabeça do monstro, ela diz adeus à adolescência e se posiciona como mulher adulta que sabe que é Alice e que pode muito mais do que a imagem de lourinha fragilzinha pode fazer supor. Ela se torna Independente, que é aquilo que buscamos através de nosso desenvolvimento desde o momento em que nos colocamos de pé e aprendemos a andar. Aí começa uma nova jornada!

Marcelo Guerra on May 28th, 2010

Na próxima sexta-feira, dia 4 de junho de 2010, coordenarei uma oficina no Centro Vale de Luz, em Nova Friburgo, sobre Observação e Sentido, dentro do 5° Encontro de Artes Waldorf. Veja no cartaz abaixo mais informações: