Publicado na Revista seleções de janeiro/2008.

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Brincando com a vida

Não é só nos consultórios – milhares de erros também acontecem nos laboratórios. Saiba como se proteger.
Por Dirley Fernandes
Reduzindo erros

É inegável que instituições e profissionais têm feito esforços no sentido de dar mais segurança aos procedimentos médicos. O radiologista Sandro Fenelon, de São Paulo, salienta os esforços do Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR) para fiscalizar a qualidade dos serviços, mas considera isso pouco. “É preciso investir em qualidade. Isso vai desde as escolas aos centros de diagnóstico, que devem contratar especialistas em radiologia certificados pelo CBR.”

A Organização Mundial da Saúde iniciou em 2007 uma campanha internacional para a redução e prevenção de erros nos serviços de saúde, lembra o Dr. Fábio Gastal, superintendente da Organização Nacional de Acreditação, entidade que certifica a qualidade de instituições médicas. Para ele, o cenário brasileiro vem melhorando. “Alguns problemas permanecem, como a dificuldade de fiscalizar os serviços públicos. Os melhores são mais fiscalizados do que os piores.” Para o médico, os erros poderiam ser reduzidos com melhores ferramentas de gestão (padronização e constante análise dos procedimentos, por exemplo).

A radiologista Ellyete Canella não vê como necessária uma mudança nos processos. “É preciso treinamento constante e conscientização dos profissionais”, sugere. “Laboratórios e profissionais precisam procurar órgãos externos, como associações médicas e entidades de certificação, para se amparar tecnicamente e se manter atualizados”, diz o bioquímico Humberto Tibúrcio, também presidente do Copren (ver quadro na página ao lado). Gastal destaca que o problema está no estabelecimento de prioridades. “Não se pode investir apenas em tecnologia para que os processos melhorem. Tem de haver equilíbrio entre a aplicação de sistemas de controle de qualidade em todos os procedimentos e o uso da ciência médica”, afirma.


Ouça quem é do ramo

Pelo Dr. Marcelo GuerraSou médico e psicoterapeuta e, como costuma acontecer com alguns profissionais de saúde, ao verificar que estava com febre, disse à minha mulher: “Isso não é nada… Vai passar.” Mas, depois de quatro dias, a febre não passava e a garganta começou a inchar. Então fui ao hospital na cidade onde moro, Nova Friburgo (RJ). Ali, depois de um rápido exame, o médico de plantão perguntou se eu apresentava algum sangramento. Lembrei da minha gengiva, que sangrava há alguns dias. O colega, então, me deu o diagnóstico: dengue hemorrágica (doença que atingiu 672 pessoas no Brasil ano passado, matando 76).

Aquilo me deixou assustado. Mas, como não queria misturar minha condição de médico com a de paciente, e como o colega que me atendeu se mostrou convicto, não refutei. Afastei-me do trabalho para observar a evolução dos sintomas e comuniquei à família que estava com uma doença grave, talvez fatal. Foi um período de muita angústia. Depois de uns dez dias, os sintomas começaram a regredir. Voltei ao hospital e outro médico me atendeu, percebendo que eu não sofria de nada além de uma forte infecção na garganta e de uma gengivite, inflamação muito comum e, de modo algum, fatal. Tomei antibióticos e em uma semana voltei ao trabalho.

Mesmo não sendo um leigo em medicina, eu não quis confrontar o médico que me deu um diagnóstico tão drástico e precipitado. Fico imaginando a dificuldade de um paciente comum. É fundamental buscar esclarecimentos para tomar as decisões sobre a própria saúde. Meus conselhos:

Pergunte até entender tudo. Já atendi muitos pacientes que me pediam explicações sobre coisas que outro médico lhes havia dito. Algumas doenças têm nomes assustadores, mas não são graves. E alguns médicos exageram na linguagem técnica. Insista até compreender qual é de fato o seu problema.

Escolha bem. O médico com quem você tem contato é apenas o primeiro elemento de uma equipe de especialistas envolvidos no cuidado com a sua saúde. Em geral, quanto melhor o hospital, melhor a equipe.

Leia a etiqueta. Muitos enganos cometidos pelos laboratórios começam na coleta do material. Ao entregar uma amostra de sangue ou outro material, peça ao profissional que lhe mostre a etiqueta de identificação. Se desconfiar, repita. Em algumas doenças, como as degenerativas, é normal que os exames apresentem variação. Há também condições nos procedimentos e na alimentação que podem alterar o resultado. Se houver discrepância, não pense duas vezes: repita.

Leve a ficha médica. É importante ter um resumo das informações sobre a sua saúde: doenças, remédios e dosagens, alergia a drogas e alimentos. Quando consultar um médico – inclusive um radiologista –, mostre a ele essa ficha, além dos exames que tiver feito.

Não exagere nos exames. O excesso de exames pode até desviar o foco de um diagnóstico que estava fechado. Não chegue diante do seu médico já dizendo que quer fazer uma ressonância magnética. Uma segunda opinião pode ser a salvação. Outra visão sobre o diagnóstico e o tratamento é indispensável. Procure outro médico, mesmo que seja na lista do seu convênio.

Marcelo Guerra é médico especializado em homeopatia, psicoterapia e acupuntura. Tem consultórios no Rio de Janeiro e em Nova Friburgo (RJ).

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